A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE EM RELATOS DE ADULTOS
ANALFABETOS: “VIXE, QUEM É A GENTE SEM
LEITURA”?
Silvano Messias dos Santos[1]
RESUMO:
Teoricamente embasado em autores como Magda Soares (2006),
Mortatti (2004), Alceu Ferraro (2009), Galvão e Di Pierro (2010), Paulo Freire
(2002), Roberto Lopes (2007), Bauman (2005), Hall (2001), Ciampa (1987), Vera
Masagão (2001), Oliveira (1992), Ângela B. Kleiman (1995), Moacir Gadotti
(1995), dentre outros, o artigo apresenta o resultado de uma pesquisa de
inspiração qualitativa realizada com adultos e idosos analfabetos e/ou pouco
escolarizados da comunidade rural de Chapada Grande, situada no município de
Bom Jesus da Lapa – BA. Objetiva-se, aqui, analisar aspectos referentes à
construção da identidade desses sujeitos, baseando-se no seguinte
questionamento: como as ditas pessoas analfabetas e/ou pouco escolarizadas se
vêem, lidam e em que medida incorporam as representações e discursos negativos
(re) produzidos e disseminados, cotidianamente, em nossa sociedade sobre e em
torno delas? Dessa forma, o presente trabalho discute, a partir das
experiências de vida relatadas pelos próprios sujeitos da pesquisa, questões
relacionadas à construção das relações sociais e das identidades desses homens
e dessas mulheres analfabetos/analfabetas mediante a presença da tecnologia
escrita.
PALAVRAS-CHAVE: Adultos analfabetos; construção da identidade; sociedade
grafocêntrica.
1. Considerações
iniciais
O presente trabalho tem por finalidade analisar o processo de construção
da identidade de pessoas analfabetas a partir de suas próprias histórias de
vida, tendo como objeto de estudo adultos e idosos analfabetos e/ou pouco
escolarizados moradores da comunidade rural de Chapada Grande, localizada no
município de Bom Jesus da Lapa – BA. A única escola do povoado, cujo público a
que atende vincula-se ao ensino fundamental e médio, não trabalha com a
modalidade EJA (Educação de Jovens e Adultos) e apenas subsidia um projeto ligado
ao TOPA (Todos Pela Educação), o qual acolhe jovens e adultos analfabetos e/ou
pouco escolarizados do referido povoado ou comunidades circunvizinhas, pertencentes
à classe sócio-econômica baixa e que vivem em situação de vulnerabilidade
social.
Este trabalho surgiu a partir das discussões desenvolvidas no Grupo de Estudos
sobre Letramento e Ensino da Língua Portuguesa realizado entre setembro e dezembro
de 2010 na Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Campus XVII – Bom Jesus da
Lapa, destinado a professores e estudantes do Curso de Pedagogia com Habilitação
em Docência e Gestão de Processos Educativos da referida instituição.
Então, no intuito de analisar como as pessoas que não sabem ler e
escrever se vêem, lidam e em que medida incorporam/reproduzem o que é dito em
nossa sociedade sobre elas, este trabalho, intitulado A construção da identidade em relatos de adultos analfabetos: “Vixe,
quem é a gente sem leitura”?, nasce de uma pesquisa de campo realizada
entre os dias 05 e 15 de janeiro de 2011. Assim, a pesquisa se deu através de entrevistas
feitas com adultos e idosos analfabetos e/ou pouco escolarizados pertencentes à
comunidade anteriormente citada, tendo como foco refletir sobre questões
relacionadas à construção da identidade desses sujeitos a partir das
experiências de vida relatadas pelos próprios.
Para isso, a metodologia utilizada na pesquisa foi de cunho
majoritariamente qualitativa, por esta se configurar como a mais indicada para
esse tipo de trabalho, porque segundo Ludke (1986, p.13), “envolve a obtenção
de dados descritivos, no contato direto do pesquisador com a situação estudada,
enfatiza mais o processo do que o produto e se preocupa em retratar a
perspectiva dos participantes”.
Inicialmente,
apresentarei algumas idéias sobre o processo
de exclusão/inclusão vividos pelas ditas pessoas analfabetas nos mais variados
setores da chamada sociedade grafocêntrica, enfatizando quem são, de onde são e
qual o perfil desses sujeitos, para num segundo momento tratar da seguinte
questão: como se configura a construção da identidade no universo dos adultos e idosos analfabetos
e/ou pouco escolarizados da comunidade rural de Chapada Grande? Desse modo, abordarei,
na segunda seção, aspectos referentes à construção da identidade de adultos
analfabetos a partir das experiências de vida relatadas pelos próprios
interlocutores da pesquisa, na tentativa de saber como esses sujeitos se vêem e
lidam com as representações, visões e discursos negativos disseminados,
cotidianamente, sobre deles e em que medida incorporam/reproduzem tais visões/representações
presentes na sociedade da informação e do conhecimento do século XXI, visões
estas muitas vezes marcadas por pré-julgamentos, estigmas e preconceitos.
2. O adulto não escolarizado na sociedade
letrada: tecendo considerações...
Em um primeiro momento, convém trazer para o debate o entendimento que se
tem sobre o conceito de “analfabeto”. Afinal, o que significa “ser analfabeto”?
Que idéias e/ou expressões vem à nossa mente quando escutamos ou lemos a
palavra “analfabeto”?
De acordo com o atual Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o termo “analfabeto”
recebe as seguintes definições: que(m)
não sabe ler nem escrever; que(m) desconhece ou conhece muito mal assunto ou
matéria. Complementando tais acepções, o Novo Dicionário da Língua
Portuguesa, de Aurélio B. H. Ferreira, compreende-se por “analfabetismo” “o estado ou condição de analfabeto” e “analfabeto”
“é o que não sabe ler e escrever”, ou
seja, é o que vive no estado ou condição de quem não sabe ler e escrever.
Com base nas definições concebidas pelos dicionários ao termo
“analfabeto”, Magda Soares (2006) manifesta:
Analfabeto é aquele que é privado do alfabeto, a que
falta o alfabeto, ou seja, aquele que não conhece o alfabeto, que não sabe ler
e escrever. Ao pé da letra, significa aquele que não sabe nem o alfa, nem o beta – alfa e beta são as primeiras letras do alfabeto
grego; em outras palavras: aquele que não sabe o bê-a-bá. (MAGDA SOARES, 2006, p. 30)
Entretanto, faz-se necessário lembrar que tais conceitos hoje difundidos em
nossa sociedade não são exatamente os mesmos de tempos atrás, pois, como sabemos,
as palavras e expressões, inevitavelmente, sofrem alterações ao longo de seu
percurso histórico, em função de os fatores sociais, políticos e culturais
também não serem estáticos e influenciarem o pensamento ideológico de cada
época, interferindo, assim, na visão de mundo que se tem e na figura de homem
que se pretende formar.
Deste modo, se formos analisar a evolução dos significados atribuídos à
palavra “analfabeto” nos dois dicionários gerais citados, com certeza
encontraremos expressões que permaneceram relativamente estáveis, bem como
acepções ou trechos suprimidos e/ou modificados. Tomamos, por exemplo, o
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa de 1710, que, segundo Mortatti (2004), atribui
ao termo “analfabeto” as seguintes definições: que ou aquele que desconhece o alfabeto, que ou aquele que não sabe ler
nem escrever; que ou aquele que não tem instrução primária; que ou aquele que é
muito ignorante, bronco, de raciocínio difícil; que ou aquele que desconhece ou
conhece muito mal determinado assunto.
E aí, indagamos: ao analisar os
conceitos dados pelos próprios dicionários ao termo “analfabeto”, que relação
poderíamos estabelecer com as visões e discursos carregados de carga ideológica
negativa reproduzidos e disseminados, histórica e cotidianamente, em nossa
sociedade em torno daqueles que não sabem ler e escrever?
Para se compreender tais questões, talvez fazer uma retrospectiva
histórica sobre o analfabetismo no Brasil – e no mundo – possa ajusdar-nos nessa
empreitada.
Em síntese, podemos afirmar que o analfabetismo sempre existiu, ou seja,
é tão antigo quanto a própria história da humanidade. Cabe ressaltar,
entretanto, que ser analfabeto hoje não é o mesmo que ser analfabeto em outros
tempos. Como assinala Mortatti (2004), no Brasil, desde o período colonial,
existia um grande número de pessoas que não sabiam ler e escrever nem tinham
instrução elementar, ou de primeiras letras. Só que essa situação emergiu como
um problema de ordem eminentemente política no final do período imperial, com a
proibição do voto dos analfabetos. Com as taxas de analfabetismo reveladas
pelos censos, a partir de 1872, data em que foi realizado o primeiro censo no
Brasil, uma nova visão de analfabeto e analfabetismo passou-se a circular em
nosso país.
Se voltarmos um pouco na história, perceberemos como se
configurou esse fato. Quando os portugueses chegaram ao Brasil, a população que
aqui vivia era analfabeta. Os jesuítas, então, se encarregaram (assim como fez
mais tarde outros povos invasores) de educar – e, sobretudo, catequizar –, os
índios e os negros, focalizando suas ações educativas não nos adultos, mas nos
meninos. Depois, por volta da primeira metade do século XIX, sabe-se que a
maior parte da população brasileira não morava nas cidades, mas no campo, e era
analfabeta.
Neste momento, porém, pode-se dizer que as formas de
comunicação e modos de pensar centrados na escrita eram menos importantes do
que aqueles baseados na oralidade. É tanto que, na época, a circulação de
livros era extremamente rara em nosso país. Ou seja: saber ler e escrever nesse
período não era tão importante quanto hoje, pois a escrita quase não era
utilizada pelas pessoas, mas, sim, a oralidade era mais presente no cotidiano
destas: as rezas, os anúncios, as notícias, as decisões e a transmissão da
tradição, por exemplo, se dava, principalmente, por meio das conversas, da
narração de histórias, dos recados orais.
O analfabetismo, assim, estava presente em todos os
grupos e camadas sociais, embora de maneira diferente: entre homens e mulheres
escravos e libertos, entre proprietários de terra, entre homens e mulheres
brancos, etc. Desse modo, o analfabetismo, ao contrário de hoje, não estava,
ainda, associado diretamente à pobreza e exclusão social. Ou seja: ser
analfabeto não era, necessariamente, ser “ignorante”, “pobre”, “rude”,
“incivilizado”. O discurso que passa a associar o analfabeto ao ser “cego-surdo”,
“incapaz”, “alienado” e “sem classe”, por exemplo, só aparece a partir do
momento em que os sensos realizados no final do século XVIII e início do século
XX mostraram que menos de 20% da população brasileira sabia ler e escrever – o
que causou um sentimento de “vergonha” nos ditos intelectuais brasileiros
diante dos países considerados “adiantados”. Diante desse quadro, intensas
mobilizações, projetos e campanhas marcaram o século XX em torno da
alfabetização de adultos, uma vez que o analfabetismo passava, assim, a ser
visto como “a vergonha do país”, como “uma praga”, “uma peste”, “uma chaga
mortal”, “uma erva - daninha” que precisava ser extinta.
É importante ressaltar, no entanto, que a palavra “analfabeto” surgiu
somente no século XVIII. Todavia, não estar na condição de analfabeto em torno
do referido período bastava apenas saber assinar o nome. Entretanto, a partir
do censo de 1950, o critério passou a se basear em uma definição mais ampliada
de alfabetizado. A esse respeito, (Mortatti, 2004) faz saber que, no censo de
2000
Considerou-se como alfabetizada a pessoa capaz de ler
e escrever um bilhete simples, no idioma que conhecesse. Aquele que aprendeu a
ler e escrever, mas esqueceu, e a que apenas assinava o próprio nome foram
consideradas analfabetas. (MORTATTI, 2004, p. 19)
Como uma possível reflexão sobre o assunto mencionado, Alceu Ferraro
(2009) expõe que
Desde as últimas décadas do século XIX, quando o
analfabetismo se transformou, quase que de repente, num problema nacional,
sucederam-se inúmeros discursos, juras, projetos, campanhas e até declarações
de guerra contra o analfabetismo, acompanhados de periódicas reformas de
ensino. [...] No entanto, em que pesem tais esforços e conquistas, permanece de
pé um fato inegável: o Brasil findou o século XX e adentrou o século XXI com um
número verdadeiramente preocupante de pessoas ainda analfabetas. (ALCEU
FERRARO, 2009, p. 25)
Cabe, então, a esta altura da discussão, trazer para o debate algumas idéias
e expressões que nos permitem compreender como a população, de modo geral,
define e vê o analfabeto na sociedade de hoje. Resumidamente, pode-se dizer
que, em tempos atuais, ser analfabeto, na visão de muitos, é o mesmo que “não
saber ler e escrever”, “não ter conhecimento”, “saber menos”, “não ser capaz”, “não
estar preparado”, dentre outras expressões – expressões estas sempre ou quase
sempre carregadas de sentido negativo. Se formos analisar com mais profundidade
os significados que esses termos expressam, chegaremos a uma conclusão: a de
que vincula-se em nossa sociedade um discurso que identifica o analfabeto, de
modo geral, à pobreza, à dependência, à falta de capacidade, à burrice. Além
disso, perceberemos que tais discursos e visões não surgiram “do nada”, mas
foram (re) produzidos e disseminados social e historicamente, ou seja, são
resultantes de um longo percurso histórico.
Como se pode vê, as expressões e idéias negativas que caracterizam o
analfabeto se dão, na maioria dos casos, assim como faz a própria palavra “analfabeto”,
ao distingui-lo dos demais sujeitos – os ditos escolarizados – pela falta de algo,
ou seja, pela ausência daquilo que não possui. A esse respeito, Galvão e Di Pierro
(2010) asseguram que, de forma preconceituosa, se define o analfabeto em nossa sociedade
como “alguém que não sabe ler e
escrever, é alguém que não é capaz, não é preparado, não é informado, não é
humanizado, não tem conhecimento”. (GALVÃO
E DI PIERRO, 2010, p. 10). Magda
Soares (2006, p. 19) é outra que manifesta a respeito, afirmando que “o que
surpreende é que o substantivo que nega – analfabetismo se forma com o prefixo
grego a(n) -, que denota negação”.
Complementando essas afirmações, Alceu Ferraro (Apud Magda Soares, 1998) também elucida que analfabeto (a(n) +
alfabeto)
É aquele que é privado do alfabeto, a quem falta o
alfabeto, ou seja, aquele que não conhece o alfabeto, que não sabe ler e
escrever e analfabetismo é um estado, uma condição, o modo de proceder daquele
que é analfabeto. (ALCEU FERRARO Apud MAGDA
SOARES, 1998, p. 47)
Percebe-se, assim, que tais expressões referem-se, sobretudo, ao que o
sujeito não tem, dificilmente ao que ele tem. E o pior é que essas expressões utilizadas
em nosso dia-a-dia são muitas vezes carregadas, como já dito, de sentidos
“ruins”: são pessoas tidas, por exemplo, como coitadas, sofredoras, alienadas,
pobres, incompletas, incapazes. E, como sabemos, esses mesmos tipos de
discursos e representações são (re) produzidos e disseminados no dia-a-dia pelo
próprio analfabeto que muitas vezes incorpora e legitima tais discursos e
visões.
Magda Soares (2006) assinala que
Conhecemos bem, e há muito, o “estado ou condição de
analfabeto”, que não é apenas o estado ou condição de quem não dispõe da
“tecnologia” do ler e do escrever: o analfabeto é aquele que não pode exercer
em toda a sua plenitude os seus direitos de cidadão, é aquele que a sociedade
marginaliza, é aquele que não tem acesso aos bens culturais de sociedades
letradas e, mais que isso, grafocêntricas. (MAGDA SOARES, 2006, p. 20)
Diante do que foi exposto, poderíamos mais uma vez indagar: como essas
pessoas que não sabem ler e escrever lidam com essas visões e discursos negativos
produzidos social e historicamente sobre e em torno delas? Como elas próprias
se vêem? Em que medida incorporam tais discursos e representações?
Sabemos que o pensamento social dominante na atualidade atribui à
alfabetização grande importância para os indivíduos e coletividade. Assim, saber
ler e escrever é, hoje, fundamentalmente necessário aos olhares da sociedade, pois,
segundo Galvão e Di Pierro (2010)
A alfabetização é considerada um dos pilares da
cultura contemporânea, pelo valor que a leitura e a escrita adquiriram no modo
de vida das sociedades urbano-industriais permeadas pela ciência e tecnologia,
e também por ser uma ferramenta que permite o desenvolvimento de outras
habilidades igualmente valorizadas nesse âmbito. (GALVÃO e DI PIERRO, 2010,
p.13)
Diante dessas considerações, mais uma vez podemos nos questionar: se
saber ler e escrever é tão valorizado no mundo de hoje, em função da dita
sociedade da informação e do conhecimento, o que dizer daqueles e daquelas que
não dominam o código da escrita e, portanto, não sabem ler e escrever? Podemos
ir além e indagar: por que essas pessoas estão, hoje, na condição de analfabetas,
ou seja, por que não aprenderam “no tempo certo” a ler e escrever? O que as
impediram de se escolarizarem?
Antes de tudo, é importante destacar
que essas questões são complexas e exigem, no mínimo, que atentemos para vários
fatores. Uma coisa é certa: ninguém é analfabeto porque quer, porque gosta ou
porque simplesmente escolheu ser analfabeto. Há outras razões por trás, é
claro; razões estas relacionadas a diversos fatores, entre os quais estão os
econômicos, sociais, políticos e culturais. Para começar, a difusão da
alfabetização ao longo da história da humanidade e a sua distribuição desigual
nas sociedades e regiões foram – e continuam sendo – resultantes de processos heterogêneos.
No caso do Brasil, por exemplo, podemos encontrar ao longo de sua história e na
contemporaneidade uma série de elementos que nos permitem entender como se deu
esse processo de analfabetismo, bem como saber quem são e onde estão a maior
parte desses sujeitos em nosso país.
Quando sinalizo a necessidade de
refletir sobre essas questões, apóio-me em Alceu Ferraro (2009)
quando este assinala que
Não basta saber quantos
são os analfabetos. É preciso saber também quem
são eles. [...] Essa segunda pergunta suscita e leva a que se procure
esclarecer questões mais específicas, como as da distribuição do analfabetismo
por região, por situação de domicílio, por sexo, por cor/raça, por classe
social etc. (ALCEU FERRARO, 2009, p. 28)
E o que fazer no sentido de reverter esse quadro? Não
diria nem reverter, já que o termo dá a entender tratar-se de uma mudança
radical, mas pelos menos olhar para a questão com um olhar mais sensível e
menos pejorativo.
Não
é que não devemos pensar em mudança num sentido amplo, radical. Muito pelo
contrário: devemos, sim, pensar e lutar por essa mudança! E uma coisa é certa:
estamos mudando e caminhando cada vez mais para a mudança, mesmo que a “passos
de tartaruga[2]”. Basta olharmos o ontem e
o hoje para compreendermos a questão: muito temos avançado. O que quero dizer é que antes e depois de
qualquer mudança há sempre a presença da reflexão, elemento essencial para a
mudança. E a mudança começa em nós mesmos.
Assim
sendo, questionamos: que idéias e/ou representações nós, os ditos
escolarizados, temos em relação ao analfabeto?
Como as políticas públicas o aborda e o trata? E o que dizer da própria
escola? Como esta o vê?
Sabemos que, ao longo de sua história, o Brasil tem
enfrentado o problema da exclusão social que suscitou grande impacto nos
sistemas educacionais. Assim, a alfabetização de adultos tornou-se temática
preocupante e de real significado no atual contexto educacional brasileiro, em
consonância com a Constituição Federal de 1988 e outras leis que anseiam por uma
educação de qualidade que proporcione a concretização da cidadania, a garantia de
direitos e o acesso è escola por todos os cidadãos e cidadãs. Convém salientar,
entretanto, que o exercício desse direito, como sabemos, é um desafio que impõe
decisões inovadoras.
A educação é um direito civil
básico tornado explícito na Constituição do Brasil[3]. Partindo
desse princípio, vê-se a necessidade de se pensar em propostas que promovam a
inclusão de todos – crianças, jovens, adultos e idosos, de ambos os sexos – no
sistema educacional, visto que o que se verificou até aqui foi um modelo de
educação marcado pela exclusão, injustiça e desigualdade social.
Dessa forma, no que tange à proposta de universalização, solidariedade
democrática e justiça social para todos, a Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional (LDBEN, 1996), nos artigos que tratam da educação básica
(artigos 37 e 38), determina que todo cidadão independente de cor, raça, credo,
nível social, tem direito à gratuidade da educação básica, quando oferecida
pelo poder público, e adequação às características dos alunos, seus interesses,
condições de vida e trabalho. E aí, perguntamos: tais princípios estão
realmente sendo postos em práticas ou simplesmente estão no papel?
Portanto, é preciso encarar a educação como uma
concepção de direito voltado a todos. Entretanto,
o sistema educacional brasileiro tem favorecido historicamente os grupos
sociais detentores de poder, negligenciando a educação das camadas populares, ou
seja, dos chamados oprimidos[4].
Assim, no que se refere à alfabetização,
sabemos que ainda há um longo caminho a percorrer. A prova disso é a existência
de números ainda alarmantes de jovens, adultos e idosos vítimas de um sistema
educacional, como já comentamos, excludente, seletivo, injusto e muito
desigual. Isso reafirma que estamos, sim, caminhando para a mudança, porém, a
“passos de tartaruga”.
Dentro desse contexto, podemos dizer que a educação de
adultos, embora muito discutida nos últimos anos, sempre ocupou um espaço
marginal em relação à escolarização formal. Os investimentos em várias
campanhas, programas e projetos tanto federais quanto estaduais e municipais voltados
para a alfabetização desses sujeitos apontaram poucos avanços, pois, entre
outros fatores, se configuravam em processos descontextualizados da realidade
dos seus participantes e constituíam-se apenas na possibilidade da leitura e da
escrita, às vezes de caráter assistencialista, sem a preocupação da
continuidade destes nos sistemas de ensino, não havendo inquietação com a causa
da inclusão social, política, econômica e cultural.
Sobre essa questão, um novo questionamento se emerge:
trata-se de violação dos direitos educativos? O que as ditas pessoas
analfabetas e/ou pouco escolarizadas pensam sobre isso?
O fato é que, de modo geral, é incomum as pessoas
analfabetas verem a questão do analfabetismo como violação de direitos
coletivos ou como expressão de processos de exclusão social. Sobre essas questões,
Galvão e Di Pierro (2010) assinalam que
Na maior parte das vezes em que
conversamos com pessoas jovens e adultas que não sabem ler ou escrever, o
analfabetismo não é percebido como expressão de processos de exclusão social ou
como violação de direitos educativos, e sim como uma experiência individual de
desvio ou fracasso, que provoca repetidas situações de discriminação e
humilhação, vividas com grande sofrimento e, por vezes, acompanhadas por
sentimentos de culpa e vergonha. (GALVÃO e DI PIERRO, 2010, p. 15)
A essa
altura da discussão, outro ponto faz-se necessário lembrar: o que se entende,
afinal, por educação? Na intenção de atribuir à educação um sentido
amplo, que suplante os muros das escolas, a Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional (LDBEN, 1996) abriu caminho institucional aos processos
educativos que ocorrem em espaços não-formais ao definir educação como aquela
que abrange “os processos educativos que se desenvolvem na vida familiar, na
convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos
movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações
culturais”. (Art. 1° LDBEN, 1996). Assim, pode-se dizer que a educação não acontece
unicamente na instituição escolar e, como afirma Brandão (1991), talvez a
escola nem seja o melhor lugar onde ela acontece. Isso se explica porque, ao
longo da vida, nos envolvemos todos os dias com vários tipos de educação. Ou
seja, no intervalo entre nascimento e morte adquirimos saberes múltiplos, em
função dos variados espaços nos quais freqüentamos ou estamos inseridos. Em
outras palavras, podemos assegurar que qualquer pessoa, independentemente de
esta ter tido ou não vínculo com a escola, possui saberes/conhecimentos
variados, em razão das experiências e histórias de vida que define cada
sujeito.
Mas o que isso tem a ver com os processos de
analfabetismo? Tem tudo a ver. Tais sujeitos, que construíram uma trajetória
escolar fora dos padrões definidos pela escola regular,
são jovens, adultos ou idosos de diferentes gerações, com gostos,
crenças, valores e interesses diferentes, portanto, com experiências,
conhecimentos e histórias de vida diferentes.
Entendendo a educação numa perspectiva abrangente, que
vá além da sala de aula, Paulo
Freire (1989) defende que a educação para adultos deve ir além do “simples
ensinar a ler, escrever e contar”, pois muito além das exigências do
domínio de habilidades da leitura e da escrita vão as novas demandas do mundo
contemporâneo para o exercício pleno da cidadania. Neste contexto, a
alfabetização não pode ser reduzida ao aspecto da aquisição pura e simples do
código alfabético e numérico, em detrimento da categoria de cidadania e da
perspectiva do estabelecimento de bases para uma educação continuada.
Desse modo, compreender as especificidades dos educandos
jovens, adultos e idosos requer o despertar de um olhar sensível sobre a
questão, de modo que o respeito e a valorização das diferenças sejam
legitimados. Em suma, podemos assegurar que a especificidade desses sujeitos decorre
do fato de serem sujeitos jovens/adultos/idosos, maduros, experientes,
trabalhadores ou pretendentes à (re) inserção no mercado de trabalho, com uma
história de vida definida e com experiências concretas.
Em se tratando da alfabetização de adultos, é preciso
termos em mente uma coisa: não basta apenas abrir as portas das instituições
escolares e permitir que esses sujeitos simplesmente adentrem as salas. Como
diz Roberto Lopes (2007),
Muito há para se fazer. Temos em pleno
século XXI mais de 15 milhões de analfabetos. Não basta a quantidade – há que
se dirigir o olhar para a qualidade. (ROBERTO LOPES, 2007, p. 5)
É preciso, portanto, garantir a inclusão efetiva desses
sujeitos na escola, oferecendo-lhes uma educação integral, não utilitarista ou
compensatória, mas uma formação crítica, reflexiva, conscientizadora,
emancipadora, que lhes oportunize a abertura de caminhos no sentido de fazê-los
entender e dominar as novas técnicas da sociedade da informação e do
conhecimento para poder participar da transformação da mesma, tornando-a mais
democrática. Ou seja: não basta apenas alfabetizar o sujeito mecânica e
superficialmente; é preciso oferecer-lhe uma formação mais ampla, que o
capacite para a vida.
Quase todo mundo fala
agora sobre “identidade”. A identidade só se torna um problema quando está em
crise, quando algo que se supõe ser fixo, coerente e estável é deslocado pela
experiência da dúvida e da incerteza. (Mercer, 1990, p. 4)
Referendando-se em autores
contemporâneos como Bauman (2005) e Hall (2001), por exemplo, podemos dizer que
se até há algumas décadas o termo “identidade” não estava nem perto do centro
do nosso debate, atualmente é um
conceito que tem sido extensamente discutido e utilizado em diversas áreas do
conhecimento por diferentes sociólogos, antropólogos e teóricos, configurando,
assim, o “papo do momento”.
Assim como os termos
“analfabetismo”, “analfabeto” e “alfabetização” sofreram mudanças em seus
significados ao longo dos tempos, como já mencionamos, a palavra “identidade”,
por também não ser algo constante/fixo/invariável, está sujeita a alterações. Mas
por que isso acontece? Segundo Magda Soares (2006),
Novas palavras são
criadas (ou a velhas palavras dá-se um novo sentido) quando emergem novos
fatos, novas idéias, novas maneiras de compreender os fenômenos. (MAGDA SOARES,
2006, p. 16)
Então, de que forma uma
nova idéia, ou um novo fato, ou uma nova maneira de compreender a leitura e a
escrita pode interferir no processo de construção da identidade de uma pessoa?
O fato é: em se tratando da leitura e da escrita, podemos dizer que a época, a
cultura, o contexto (social, econômico, político, etc.) transmite valores e
molda o sujeito, ou seja, “desenha-o”. Desse modo, cada pessoa constrói – no
intervalo entre nascimento e morte – sua identidade, expressa na forma de o
sujeito andar, vestir, falar, agir, ver o mundo. E, como sabemos, esses valores
– é claro – estão passíveis a mudanças, podendo levar o indivíduo a sofrer
“crises de identidade”, como se pode verificar na citação que abre esta seção.
Em se tratando do “ser
analfabeto”, o que significaria entrar em “crises de identidade”? Seria não se
aceitar do jeito que é? Envergonhar-se? Perder a auto-estima? Enfim, o que leva
uma pessoa a não aceitar-se, ou seja, a não se identificar com a sua imagem
refletida no espelho? Teria o contexto social, econômico, político e cultural alguma
coisa a ver com isso? É claro que sim. Em se tratando do alfabetismo/analfabetismo,
sabe-se que, em virtude desses fatores, novas, intensas e variadas práticas de
leitura e escrita fazem emergir ao longo dos tempos novas necessidades e visões
de mundo, delineando, assim, a forma de as pessoas se olharem – o que constitui
traços de sua identidade.
E como as ditas pessoas
analfabetas da atualidade se olham? “Ser analfabeto hoje,” é o mesmo que “ser
analfabeto ontem”?
Partindo do princípio de
identidade como metamorfose, faz-se conveniente trazer para o debate a proposta
de Kolyniak & Ciampa (1993), os quais entendem identidade como
construção/reconstrução/desconstrução constantes que acontecem no convívio
social, no dia-a-dia das pessoas, na multiplicidade das experiências vividas,
na teia das relações estabelecidas ao longo da vida.
Assim sendo, poderíamos
afirmar que a identidade se forma num processo contínuo de estruturação e reestruturação
que vai acontecendo ao longo da vida, impulsionado pelas relações sociais
estabelecidas, as quais se tornam “modelos/padrões” que favorecem, às pessoas,
a produção de uma imagem de si mesmas, ou seja, a sua identidade. Isso
permite-nos entender que a construção da identidade acontece nas trocas
afetivas estabelecidas na vida social em estruturas sociais – como, por
exemplo, a família, a escola, a igreja – e nos mecanismos criados pela
sociedade – como é o caso da linguagem, por exemplo.
E o que dizer do processo
de construção da identidade em relação ao analfabeto? Como elucidado na seção anterior
deste trabalho, ninguém é analfabeto porque quer, porque gosta ou simplesmente
porque optou estar nesta condição. O fato é: compreender as razões que movem
uma pessoa na direção de alfabetizar-se envolve conhecer o que representa
“saber” e “não saber ler e escrever” numa sociedade letrada, como esta pessoa
se considera, como se constitui a identidade de quem se propõe a ler e a
escrever, sua auto-imagem, sua imagem social, como concebe a conquista da
cidadania e o resgate da dignidade subtraída[5].
No âmbito dessa discussão,
podemos definir identidade pessoal como sendo a maneira pela qual a pessoa se
vê, enxerga a si mesma, ou seja, está relacionada à sua própria imagem (o modo
como o sujeito se sente, se comporta etc.). Para Ciampa (1987),
Cada indivíduo encarna as relações sociais,
configurando uma identidade pessoal, uma história de vida, um projeto de vida,
uma vida que nem sempre é vivida, no emaranhado das relações sociais. (CIAMPA,
1987, p. 127)
Segundo esse autor, cada pessoa personifica as
relações sociais vividas, configurando uma identidade individual. Desse modo, a
identidade, para qualquer pessoa, se constitui dos diversos grupos dos quais
participa. A sociedade, por sua vez, se constitui do conjunto das identidades
pessoais, configurando, assim, a identidade um fenômeno social.
Como já discutido, o termo
“analfabeto” é normalmente entendido como a “falta” de algo, a ausência daquilo
que o indivíduo não possui. Neste caso, podemos dizer que essa falta se refere
à “falta” da leitura/escrita. E neste contexto, podemos perceber uma outra
visão sobre identidade, visão esta relacionada à percepção sobre a “falta” (MELUCCI,
2004). Como sabemos, a experiência da falta, bem como as necessidades humanas (incluindo,
inclusive, a da leitura e da escrita), são definidas e construídas
culturalmente. Ou seja: as pessoas reconhecem suas necessidades – nascidas do
pertencimento aos variados grupos – e “sabem quem são”. A experiência da
“falta” leva as pessoas, inevitavelmente, ao questionamento sobre si mesmas, ou
melhor, sobre a sua identidade. Isso porque o
ser humano – como ser social que é – compara, avalia e percebe-se semelhante –
ou diferente – em relação às outras pessoas com as quais convive, o que torna
possível constituir, positiva ou negativamente, traços identitários sobre si.
Como já dito, a difusão da alfabetização e a sua distribuição ao longo da
história resultam-se de processos heterogêneos. E o que dizer das pessoas que
não sabem ler e escrever? Suas histórias de vida também são heterogêneas, ou
apresentam características similares e, portanto, ‘não-heterogêneas’? Que
relação poderíamos estabelecer desse entendimento com o conceito de identidade?
Dentro dessa abordagem, é importante
lembrar que, geralmente, quando falamos ou ouvimos os termos analfabetismo ou analfabeto logo os associamos a um público específico: o
adulto. Dificilmente associamos a imagem
do analfabeto à criança. Como assegura Vera Masagão (2001), essa questão nos
remete tanto à especificidade etária como à especificidade cultural, ou seja,
tanto à concepção de corte por idade (jovens e adultos são, basicamente,
“não-crianças”) quanto ao fato de a maior parte das pessoas analfabetas
pertencerem a um determinado grupo de pessoas relativamente homogêneas.
Quanto à identidade,
podemos dizer que a especificidade etária e, de forma mais ampla, cultural,
constitui traços identitários das pessoas consideradas analfabetas. Por este
ângulo, a constituição do estado de analfabetismo, como se sabe, começou na
infância, com a situação socioeconômica da família, o que contribuiu para que a
freqüência na escola fosse nunca iniciada ou interrompida. Desse modo, como
afirma Oliveira (1999), o adulto analfabeto têm sua imagem formada a partir da identidade
construída nesta situação socioeconômica: uma vida de pobreza, trabalho
intenso, e não necessidade de ler e escrever, tomando como base os valores e
princípios das práticas sociais exercidas nos contextos de sua infância e dos
grupos dos quais um dia fez parte.
Sobre os jovens e adultos que não sabem ler e escrever, faz-se oportuno
lembrar que os estudos já realizados nessa esfera apontam resultados em duas
vertentes: de um lado, está a rica diversidade
cultural da sociedade brasileira; de outro, encontra-se trajetórias de vida
relativamente homogêneas. Neste sentido, faz-se mais uma vez cabível as
palavras de Galvão e Di Pierro (2010) ao afirmarem que:
A ampla maioria dos analfabetos é constituída por
pessoas oriundas do campo, de municípios de pequeno porte, nascidas em famílias
numerosas e muito pobres, cuja subsistência necessitou da mão-de-obra de todos
os membros desde cedo. O trabalho precoce na lavoura, as dificuldades de acesso
ou a ausência de escolas na zona rural impediram ou limitaram os estudos dessas
pessoas na infância e adolescência. (GALVÃO e DI PIERRO, 2010, p. 16)
Oliveira
(1992) concorda:
Esses grupos tendem a ser extremamente homogêneos do
ponto de vista social: seus membros são migrantes de zonas rurais empobrecidas,
trabalhadores em ocupações urbanas pouco qualificadas, com uma história
descontínua e malsucedida de passagem pela escola e filhos de trabalhadores
rurais analfabetos ou semi-analfabetos. (OLIVEIRA, 1992, p. 57)
Nesse sentido, figuram algumas falas de
pessoas analfabetas e outras pouco escolarizadas[6],
as quais relatam sobre suas histórias de vida e experiências relacionadas à
dificuldade de acesso ao processo de escolarização que tiveram:
Eu sempre morava na roça, longe da escola. A escolinha
que tinha, ói, ficava bem longe de casa e aí como eu ía estudar? Não dava; por
isso, meus pais mim tirou da escola – eu e meus irmão. A vida era difici. Nem
se a escola fosse perto não sei se dava pra eu estudar: tinha que ajudar minha
mãe na roça. Sinto muita falta do estudo. O estudo é importante. Mas fazer o
que, né? Se Deus quis assim... (Helena, agricultora)
Eu não pude estudar. Tinha que trabaiar na roça com
meu finado pai. Não tive a educação da escola, mas tive a educação de meu pai,
que mim ensinou a ser gente. Fui na escola só uns pocadinho de dia, mas num
aprendi nada não.Tive que desisti pra trabaiar. (Sebastião, carvoeiro)
Onde eu morava não tinha escola. Depois me mudei pra
cidade, mas aí fiquei com vergonha de estudar com as criancinhas pequenas. Hoje
sei ler e escrever depois que apareceu essa coisa aí de escola para os idosos.
É muito bom estudar. (Maria Aparecida, dona de casa)
Só aprendi assinar o meu nome. Mau pai me botou na
escola e eu fiquei lá mais ou menos uns 15dia. Depois meu pais me tirou da
escola pra ajudar ele na roça. Aí eu nunca mais tive a oportunidade de estudar.
Me casei, tive meus filhos e aí não deu mais pra voltar pra escola estudar. Só
sei bastante matemática. Sei medi terra, fazer cálculos de cabeça. Não conheço
o ‘o’, mas sei fazer outras coisa. (João, pecuarista)
Ao analisar tais
depoimentos, podemos chegar à conclusão de que o adulto analfabeto tem parte de
sua imagem formada a partir da identidade construída em sua própria situação
socioeconômica: uma vida de pobreza, trabalho intenso, dentre outros.
Fica evidente nas falas
acima expostas que, quando nos referimos ao analfabeto na sociedade letrada, ou
seja, ao sujeito que vive no mundo escolarizado e que não domina a tecnologia
escrita, estamos, na verdade, nos referindo a um grupo social caracterizado
pela homogeneidade. Como se vê, trata-se de um grupo composto, em sua maioria,
por pessoas da zona rural ou migrantes desta, trabalhadoras em ocupações pouco
qualificadas (geralmente braçais) e com uma história descontínua e mal-sucedida
de passagem pela escola. Podemos perceber, ainda, nas falas à cima expostas
que, pelo contexto ao qual pertencem, os sujeitos depoentes são filhos de pais
também trabalhadores de ocupações braçais não-qualificadas (principalmente a
lavoura) e igualmente analfabetos, ou seja, são pessoas que, como diz Isabel
Magalhães (in Ângela B. Kleiman,
1995), “apenas falam a língua das que a falam e também a escrevem”.
Em outras palavras, pode-se dizer que foram raras na vida cotidiana
dessas pessoas as situações envolvendo a leitura e a escrita, como diz uma das
entrevistadas
Na minha época não tinha escola perto de casa e por
isso meu pai não me botou na escola porque era longe e ele tinha medo de me
deixar sozinha pelas estrada. E a gente quase não usava a escrita. Só quando ía
escrever carta. Aí meu pai chamava uma vizinha que escrevia pra ele. (Zefa,
agricultora)
Como se pode vê, os saberes adquiridos no trabalho muitas vezes
costumavam ser mais valorizados do que os conhecimentos veiculados pela escola.
Isso porque o trabalho doméstico e a lavoura exigiam apenas instrução verbal,
dificilmente escrita. Como se sabe, os contatos sociais limitavam-se à famílias
e vizinhos, e as situações cotidianas envolvendo a escrita e a leitura giravam
restritamente em torno de eventuais cartas, cerimônias religiosas ou simples
anotações.
Hoje, porém, uma outra visão de leitura e escrita se faz presente em
nossa sociedade (chamada por muitos de “sociedade da informação”, “sociedade
tecnológica”, “sociedade do conhecimento”, “sociedade grafocêntrica”). Uma
coisa é certa: a todo o momento estamos, quer seja escolarizados ou não,
envolvidos em situações cujas práticas de escrita e leitura estejam a elas de
alguma forma vinculadas. Essas circunstâncias
ficam evidentes nos depoimentos a seguir:
A gente precisa da escrita na vida da gente pra tudo, né?
E quem não tem sofre. (João, pecuarista)
Acho que para aprender não tem idade. Qualquer hora é
hora. Voltei a estudar e tô gostano. A escola ensina as pessoa, educa elas, faz
a gente se sentir cidadão. Estudar é muito bom. (Maria Aparecida, dona de casa)
A gente encontra a escrita em tudo na
vida da gente. Se vai no Banco, tem que assinar os documento; se vai no
mercado, tem que ver as lista e os preço das coisas; então a gente precisa da
leitura. (Gertrudes, comerciante)
Galvão e Di Pierro (2010) acrescentam
No contexto urbano letrado, as
habilidades básicas de leitura, escrita e cálculo passam a ser adquiridas com
maior freqüência para a resolução de questões financeiras e burocráticas, para
a obtenção de emprego e desempenho profissional, para a orientação e deslocamento
nos espaços em domínio dessas habilidades, os analfabetos não se ressentem
somente das limitações objetivas com que se defrontam, mas se sentem
especialmente constrangidos com rótulos pejorativos e a desqualificação
simbólica que a sociedade lhes impõe. (GALVÃO e DI PIERRO, 2010, p. 20)
E como essas pessoas
definem o “ser analfabeto”, ou seja, para elas, o que significa estar na
condição de analfabetas? Ou seja: como elas próprias se definem, se enxergam,
se vêem? Nos depoimentos, percebe-se a consciência dos entrevistados de serem
estigmatizados. Eles próprios se atribuem muitas características negativas,
dentre elas a de serem “ignorantes” e “cegos”. Chegam a se considerar como
sendo um “nada”:
Quem não sabe ler é um “zé ninguém”. Não serve pra
nada, né? Ninguém valoriza. (Helena, agricultora)
É como se fosse cego, sem conhecimento... (Quinca, agropecuário)
Resumidamente, dá-se para
perceber que o conceito de analfabeto, segundo os participantes da pesquisa, é
bastante diverso: “analfabeto é quem não sabe escrever seu próprio nome”, “é
aquele que não tem leitura”. Verifica-se, porém, que a essas simples
conceituações costuma associar-se outras acepções como um perverso
condicionante da auto-imagem: a ignorância, a pobreza e a indignidade. Na declaração
que se segue, percebe-se, por um lado, o valor do depoente em relação à
escrita, e por outro, uma resistência para se garantir uma identidade que, na
visão do mesmo, não se garante na sociedade letrada. Assim, na resposta à
pergunta “Como você se sente sem saber ler e escrever”?, esse sujeito se mostra
na sua contradição e no seu conflito de identidade:
Eu penso assim: Vixe, quem é a gente sem leitura? É
claro que não somos nada, né? Eu sou um cidadão, tenho uma família, um
trabalho... Então somos alguma coisa, sim, só não somos como as pessoas que
sabe ler e escrever bastante, que pode arrumar um serviço melhor e ser mais
respeitada. As pessoas sem leitura não são respeitadas. As pessoas discrimina
mesmo. A gente vê nos olhar. Às vezes a pessoa não fala, mas a gente percebe o
desprezo pela gente: no banco, na rua, no hospital, nas viagem, na hora de
buscar um serviço. Então é por isso que eu quero que meus filhos estude pra ter
outra vida, um emprego que preste e não passe pelos mesmo apuros que o pai
deles passou. Essa vida de roça é muito pesada e eu quero que eles se esforce
bastante pra ter um amanhã melhor. Já eu tô velho, não vou aprender mais não.
Foi minha sina, né? Mas fazer o quê? E a mesma coisa aconteceu com meus irmãos.
Eles também não sabem ler. Só se aprendeu depois de velhos. Mas nosso pai
sempre deu bom exemplo pra nós e ensinou a gente a ser honesto e trabalhador.
Acho que isso é ainda mais importante que a escrita. Não adianta nada ter
diploma e não ter honestidade, né? Então é isso que eu acho. (João, pecuarista)
Em síntese, pode-se dizer que, por se sentirem constrangidas com os
rótulos pejorativos e desqualificadas simbolicamente pela sociedade, muitas
dessas pessoas com pouca familiaridade com a leitura/escrita se assumem
inferiores em relação às escolarizadas, o que as fazem muitas vezes recorrer a
estratégias para ocultar a condição de analfabetas, negando, assim, sua própria
identidade. Ou seja,
Os sucessivos
constrangimentos e experiências de discriminação levam à corrosão da
auto-estima dos indivíduos, que acabam assumindo a identidade deteriorada e
assimilando ao próprio discurso as metáforas depreciativas formuladas pelas
elites letradas e difundidas pelos meios de comunicação social. (GALVÃO e DI
PIERRO, 2010, p. 24)
Em outras palavras, conclui-se que esse sentimento de vergonha e
inferioridade, que muitas vezes leva pessoas a esconderem sua condição de
analfabeta, é fruto da imagem social em relação ao analfabeto. Ou seja: ser
analfabeto aos olhos do outro gera no indivíduo sentimento de vergonha, como pode
ser evidenciado nos depoimentos seguintes, nos quais traços relacionados ao que
chamamos no início dessa seção de “crises de identidade” podem ser identificados:
Eu já tentei muitas vezes tentar esconder o meu lado
de não ter leitura, sabe? Mas nem sempre a gente consegue. Um dia, mesmo, eu
passei uma vergonha danada. Eu entrei num banheiro público e, como eu não sei
ler, entrei no banheiro errado. Uma mulher mi viu lá dentro e ficou espantada.
Quando saí pra fora, vi um home entrar noutro banheiro do lado e só então fui
vê que tinha entrado no banheiro das mulher. Agora presto mais cuidado: olho
nas figura que tem na porta. Se tiver um ‘bunequim’ com saia, sei que ali é
banheiro das mulher; se o desenho for um home, sei que o banheiro é dos home...
esses ‘desein’ ajuda a gente que não sabe ler. Todo banheiro devia ter um. (Sebastião,
carvoeiro)
(...) a gente sofre muito, é muito difícil, né? A
gente passa vergonha quando vai assinar um documento e a gente tem que botar o
dedão na tinta. Aquilo é humilhante. (...) E quando a gente vai pra cidade a
gente percebe que todo mundo repara na gente. Sei lá... a forma da gente falar,
de se vestir. O povo repara e discrinima muito. Daí a gente fica sem jeito, né?
É por isso que tem gente que esconde que é analfabeto. Hoje eu não escondo mais
não, mas quando eu era mais novo eu já escondi, principalmente das minhas
namorada. Eu mandava meus colega escrever bilhetes de amor pra elas e elas
dizia que eu escrevia bonito e então eu fingia que tinha sido eu mesmo que
tinha escrivido aquilo ali. (Jesuíno, carvoeiro)
No que se refere à
identidade, Ciampa (1994) assinala que uma pessoa em cada momento se apresenta
como parte de si mesma, não como uma totalidade. Assim, cada indivíduo, diante
de outras pessoas, se apresenta como uma parte de si mesmo, através de um de
seus aspectos; porém, se encarna como totalidade o que aparece para o outro: o
exterior determina a identidade da pessoa. É por isso que certas pessoas, como
as citadas acima, sentem-se envergonhadas de serem identificadas como analfabetas
e, por isso, tentam de alguma forma ocultar esse traço de sua identidade.
É importante destacar, porém, que nem todas as pessoas analfabetas
sentem-se diminuídas ou internalizam os preconceitos, estigmas e
pré-julgamentos. Muito pelo contrário. Muitas delas reafirmam serem capazes e
inteligentes, preservam a auto-estima, não se sentem “menores”, bem como se
reconhecem dotadas de saberes e produtoras de cultura.
Eu não tenho leitura, mas sou cidadão como qualquer
um. Falo com qualquer político, prefeito, vereador, homem de lei. Só não sei
ler e escrever, mas isso não me deixa com vergonha. Consegui criar minha
família e tenho muito orgulho disso. Acho que a gente precisa valorizar o que a
gente é, não acha? (Gilberto,
comerciante)
Quando perguntado por que não
voltam a estudar, percebe-se, em alguns testemunhos, a internalização da idéia
de que estudar “é coisa de novo”, outro traço de identidade. Assim, declaram:
Eu queria estudar quando eu era nova. Agora não. Já
criei meus ‘fi’ mesmo, agora vou me apusentar e me inquietar no meu canto. Meus
‘fi’, sim, eles eu quero que estuda pra que no amanhã eles possa ter um futuro
mió... (Dona Filomena, aposentada)
Eu aprendi só o meu nome mesmo. Mas acabei esquecendo
depois. Eu pedi pra minha filha me ensinar o ABC mais desistir. É muito difícil
decorar aquelas coisa. Não tenho cabeça ‘praquilo’ não. To velho, não aprendo
mais não. E estudar pra que, né? Vou morrer logo mesmo, né? [risos] Levar
estudo pro buraco eu não vou. Se vivi até aqui assim, vou precisar de estudo
mais pra quê? (Bartolomeu, agricultor)
Para outros, aprender a
assinar apenas o nome “já tá bom”, uma vez que escrever o próprio nome eleva a
auto-estima: além do significado que o gesto representa, o sujeito se percebe
aceito socialmente, ou seja, sua imagem social se altera, torna-se mais valorizada,
dando à pessoa a possibilidade de superar o
estigma do analfabetismo. Ou seja: trata-se de um processo de transformação da
identidade.
Eu aprendi a ler depois de véio. Minha fia me ensinou.
Depois fui pra escola estudar junto com os véi. Agora leio bula de remédio,
leio a Bíbria... De vagar mais leio! Só tô com a vista curta, um poço fraca, mais
dá pra quebrar o galho. (Seu Quintino, agricultor)
Para concluir, achei oportuno trazer para o trabalho o relato[7] que
se segue, no qual Manuel, um dos entrevistados, fala de si e de sua relação com
o mundo da escrita de acordo com determinados
valores, mostrando-nos, com riqueza de detalhe, elementos associados à
construção de sua identidade e que estão intrinsecamente relacionados às
discussões travadas neste trabalho.
Meu nome é Manuel Pereira da Silva, tenho 55 anos de
idade. Nasci no município de Bom Jesus da Lapa, na comunidade de Capoeiras, e
fui embora daqui pro Paraná novo, quando tinha a idade de 16 anos. Sempre
trabalhei na roça, labutando com gado e mexendo com lavoura. Já fiz de tudo
nesta vida. Aí, depois de casado, voltei pra Bahia, pra perto da minha família.
Hoje moro aqui em
Chapada Grande. Não tenho leitura, “malemá” assino o nome
mesmo.
Quando saí da Bahia da casa de meus pai , naquele
tempo não tinha escola perto. Saí rapaz novo com 16 anos de idade e não tive
oportunidade de estudar. Eu fui na escola não chegou um mês e aí meu pai me
tirou porque era longe e tinha que ajudar na roça. E eu sempre morei em fazendas
e nunca morei, assim, em lugar adequado no tempo que era novo.
Muitas vez a gente acha que se tivesse um conhecimento
melhor de letra a vida era mais fácil de sobreviver. Porque a gente fica sem
conhecimento, muitas vezes sem poder tirar habilitação, sem poder ter uma vida
melhor.
Já deixei de ter empregos bom por não ter leitura. E
isso aí é uma coisa que sempre acontece na vida da pessoa que não tem leitura.
Muitas vezes deixei de conseguir emprego por causa disso. Isso já aconteceu
comigo várias vezes.
[...] Já sofri preconceito por não saber ler e
escrever. Muitas vezes em viage.
Em viagem a gente passa muita aflição. Porque não conhecer e
esperar o carro mais ou menos quando vem e ter que ver pela marca da passagem.
E ao pedir informação também. Tem que pegar muita informação porque muitas
vezes a pessoa pode pegar uma coisa errada por não saber ler e escrever. Outra
coisa também que eu acho difícil: é que a pessoa que não tem leitura é porque
não tem o conhecimento e tem que andar meio baseado pelas coisas.
[...] É... Já senti, sim, vergonha por não saber ler e
escrever... Muitas vezes a pessoa esconde [que é analfabeta]. Porque eu já
escondi muitas vezes pra ninguém perceber. Eu conversando muitas pessoas pensam
que tenho uma boa leitura e não tenho. Pessoas pensam, até já me perguntaram se
eu já fiz algum curso, mas eu “malemá” garrancho o meu nome aprendido pelos
outro. Tipo de um desenho. Eu... Minha assinatura é como um desenho.
[...] Eu não me sinto menor do que os outro que é
formado. É que tem muitas coisa que a gente entende, né, assim, sabe, a gente
aprende no mundo viajando. E muitas dessas experiência muitas vezes talvez o
estudado não têm. Tem que sofrer muito, bater muito com a cabeça. A pessoa
muitas vez tem que arriscar, muitas vez pra...é... em conversa aprendendo com
os outro. Porque eu pra chegar a esse conhecimento eu conversava muito com as
pessoas que tinha o conhecimento de letra, pessoas de alto nível, pessoas da
lei. Conversei muito pra chegar a esse conhecimento.
Mas a leitura é importante, né?Aliás, muito
importante. Hoje em dia se você vai arrumar um emprego e é analfabeto, vai
arrumar que emprego? Se não sabe ler é logo descartado. É por isso que a
maioria das pessoas que trabalha na roça ou em qualquer serviço pesado não sabe
ler. Se essas pessoas sabisse ler e escrever, né, elas com certeza não tava
trabalhando nesses serviço, mas em serviços mais leve e mais melhor.
A vida sem leitura é difícil. Ela é importante na vida da gente pra tudo.
Por isso que eu aconselho meus filhos a estudar, pois hoje as coisa tá mais
fácil, só não estuda quem não quer. Já na minha época a coisa era mais difícil.
(Manuel, morador de Chapada Grande, entrevistado em 22/04/2011)
Se formos analisar atenciosamente o relato de Manuel, encontraremos em
vários momentos aspectos ligados à construção da identidade desse sujeito. Manuel
inicia a narrativa com informações sobre o nome e o lugar onde nasceu, bem como
relata sua trajetória de vida, caracterizada por migrações e circunstâncias
relacionadas à “falta da leitura e escrita”. Como se pode vê, as avaliações de
Manuel sobre a leitura e a escrita são carregadas de sentido ideológico e seus
posicionamentos representam traços característicos de sua identidade. Durante
todo o relato, uma coisa é certa: Manuel o tempo todo avalia positivamente a
escrita e a leitura: “[...] a
leitura é importante, né? Aliás, muito importante. Hoje em dia se você vai
arrumar um emprego e é analfabeto, vai arrumar que emprego?” (linhas
33-34).
Ainda sobre essa importância, faz nas linhas 10 e 11 uma relação com a
ascensão social: “Muitas vez a
gente acha que se tivesse um conhecimento melhor de letra a vida era mais fácil
de sobreviver”. E acrescenta: “Já deixei de ter empregos bom por não ter leitura. E isso aí é uma
coisa que sempre acontece na vida da pessoa que não tem leitura” (Parágrafo
4 ; linhas 13-14).
E o que é “ser analfabeto” na
visão de Manuel? No quinto parágrafo, nas linhas 20 e 21, Manuel caracteriza o
analfabeto como uma pessoa que “não
tem o conhecimento” e que, por isso, precisa “andar meio baseado pelas coisas”, evidenciando,
assim, traços de sua identidade. Tal depoimento dá a entender tratar-se de uma
relação entre o analfabeto (visto por ele como uma pessoa sem conhecimento) e o
escolarizado (em quem precisa basear-se), pois este, por dominar a ‘tecnologia’
da escrita, é, segundo ele, um ser confiável, dono do saber. Assim, percebe-se
através das falas de Manuel a imagem que ele, enquanto adulto não escolarizado,
tem de si em relação ao grupo de alfabetizados; imagem esta marcada pela falta
de auto-estima e pela insegurança.
Logo no primeiro parágrafo, linha 3, Manuel justifica que não teve acesso
à leitura e à escrita quando era criança porque “sempre trabalhei na roça, labutando com gado e mexendo com
lavoura; por isso, hoje
“malemá” assina o nome”. Como dito anteriormente, as razões que
impediram Manuel de aprender ler e escrever estão ligados a alguns fatores, os
quais foram elencados pelo próprio: “naquele tempo não tinha escola perto” (linha 6); “não tive oportunidade de estudar
[...] porque [a escola] era longe” (linhas 7-8); “tinha que ajudar na roça” (linha 8); “na minha época a coisa era mais difícil” (linhas
39-40) . E argumenta que
não pode continuar os estudos porque sempre “morei em fazendas e nunca morei, assim, em lugar adequado
no tempo que era novo” (linhas 8-9).
Por outro lado, fica evidente no testemunho de Manuel seu conflito de
identidade: ao mesmo tempo em que não se sente “menor” em relação ao
escolarizado, sente vergonha por não dominar o código da “tecnologia” escrita.
Na vigésima sexta linha, referente ao sétimo parágrafo, ele diz: “Eu não me sinto menor do que os outro
que é formado”. Porém, nas linhas 22-23, se contradiz ao afirmar que “já senti, sim, vergonha por não saber
ler e escrever... Muitas vezes a pessoa esconde [que é analfabeta]. [...] eu já
escondi muitas vezes pra ninguém perceber”. Por outro lado, no entanto,
se reconhece dotado de saberes, experiências e produtor de cultura, ao afirmar,
nas linhas 26-27, que “tem
muitas coisa que a gente entende, né, assim, sabe, a gente aprende no mundo
viajando”. E no que diz respeito
à forma como adquiriu esses saberes, Manuel acredita que é fruto da relação
estabelecida com “o outro”, sendo este outro “as pessoas que tinha o conhecimento de letra, pessoas de
alto nível, pessoas da lei” (linhas 30-31), com as quais dialoga e interage.
E o que dizer dos estigmas, preconceitos e pré-julgamentos sofridos por
essas pessoas na sociedade marcada pela presença da escrita? A esse respeito,
Manuel assinala, na 16ª linha, o seguinte: “Já sofri preconceito por não saber ler e escrever”. E conclui (linha 38) dizendo que “a vida sem leitura é difícil”, pois “ela é importante na vida da gente
pra tudo”, razão que o faz incentivar os filhos a estudar.
Enfim... Saber ler e escrever é, hoje, uma das necessidades básicas
impostas por uma sociedade cada vez mais marcada pela presença da escrita. E a
escola, como sabemos, vista como parte importante desse mundo e
principal agência alfabetizadora, não pode ignorar esse processo, visto que é o
espaço onde os sujeitos que não tiveram a oportunidade de “aprender a ler e
escrever no tempo certo” podem ter a chance de adquirir os códigos e símbolos
culturais para a sua inserção na sociedade grafocêntrica, tão importantes na
cultura globalizada em que vivemos. Daí a necessidade de encarar a educação
como uma concepção de direito voltado a todos.
4. Finalizando sem
finalizar...
Neste trabalho, buscou-se mostrar, a partir de relatos de adultos
analfabetos, a construção da identidade desses sujeitos e sua relação com o
mundo da cultura escrita. Assim, este estudo tentou refletir sobre como se configura
a construção da identidade dessas pessoas no universo da chamada sociedade
grafocêntrica e analisar o processo de exclusão/inclusão vividos pelos mesmos
em situações muitas vezes marcadas por pré-julgamentos, estigmas e
preconceitos.
Portanto,
consideramos que este trabalho não se dá por encerrado: trata-se de uma
temática ainda muito carente de novas discussões e olhares, outros estudos e
análises. Em suma, espera-se que as discussões aqui apresentadas tenham
suscitado algumas reflexões:
·
O que significa “analfabetismo”? E
“analfabeto”? Que idéias e/ou expressões vem à nossa mente quando escutamos ou
lemos a palavra “analfabeto”?
·
Há preconceito contra o analfabeto na
sociedade em que vivemos? Por que ele existe? Como surgiu?
·
Como as pessoas que não sabem ler e
escrever lidam com as visões e discursos negativos produzidos social e
historicamente sobre e em torno delas? Como elas próprias se vêem? Em que
medida incorporam tais discursos e representações? Por que incorporam tais
discursos e representações?
·
De que forma as políticas públicas abordam
a questão do analfabetismo no Brasil? E o que dizer da escola? Como esta trata
a questão?
·
Se a educação é direito de todos, por que
muitos não têm acesso a essa educação? O que fazer para garantir a todos esse
direito?
Prefiro,
assim, “terminar” este trabalho com perguntas, ao invés de respostas. E aí
estão algumas perguntas; vamos buscar as respostas?
Referências:
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[1]
Graduado
do Curso de Pedagogia com Habilitação em Docência e Gestão de Processos
Educativos pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Campus XVII – Bom Jesus
da Lapa – BA. E-mail: silvano_uneb2009@yahoo.com.br
[2] Essa
expressão é de minha autoria e já foi por mim utilizada em outras produções
textuais.
[3]
Constituição: República Federativa do Brasil, 1988, Título II, Capítulo II,
Artigo 6.
[4] Sobre
essa questão, ver Paulo Freire (2002).
[5] VALINO,
Maria de Lurdes. Identidade e alfabetização.
Disponível em: http://alb.tempsite.ws/anais16/ sem01pdf/sm01ss04_04.pdf.
Acessado em 17 de maio de 2011.
[6] Faz-se
importante ressaltar que, na intenção de preservar a identidade dos
entrevistados, optei em utilizar neste trabalho nomes ficcionais.
[7] O
texto apresentado é transcrição de gravação realizada em entrevista. Foram
feitas algumas adaptações necessárias para transformar o texto oral em um texto
escrito, porém, conservando a informalidade do discurso e sendo fiel à
linguagem usada pelo interlocutor.
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